Categoria: Leituras

  • Estrela Nua

    Estrela Nua

    A sensação de reler um livro e descobrir coisas novas é interessante. Você se questiona: como não ‘entendi’ isso antes? Que frase linda! Etc.

    Carlos Eduardo — ou Cadu — é um jovem de 18 anos totalmente perdido na vida. Muito embora seja filho de pais ricos, ele escolheu seguir o seu próprio caminho. Mora miseravelmente sozinho, faz parte de uma banda de rock de fundo de quintal cujos membros são seus amigos e sua namorada, a Julia. Todo mês é um sufoco para pagar o aluguel e sempre pensa em desistir de tudo e ir voltar a morar com os pais.

    No livro, ele conversa com a gente. É como se você estivesse sentado numa mesa de bar e ele estivesse ao seu lado contando a história dele para você. Meio doido isso, mas é esta a impressão que se tem logo nas primeiras páginas. Ou então, como se ele estivesse escrevendo num diário e, no próprio texto, ele conversasse consigo mesmo. Interagisse consigo.

    Ele nos conta a história de como Hilde entrou na vida dele. Recebia bananas da mãe do Rubinho. Estas eram sempre enroladas em papel de jornal. Um anúncio “precisa-se de pianista para acompanha estrela de bel canto” chamou a atenção dele e quando a situação financeira apertou, pegou o papel e decidiu ligar. Foi aí que conheceu a estrondosa, elegante e absurdamente enigmática Hilde. A leitura flui de um jeito que não se quer mais parar. Descobre-se que Hilde tem um poder de envolvimento fora do comum. Algo que tira Carlos Eduardo do sério. Muito embora tente se esquivar, aos poucos aquela senhora idosa vai mudando e descontruindo o mundo do jovem. Medos, sonhos, carapuças, sensação de viver plenamente. Tudo isto vai aflorando e abrindo o desejo de desbravamento de Cadu.

    A sensação que fica é que parece que Hilde precisava aparecer na vida dele. Ela precisava chacoalhar aquele menino, tirá-lo da terrível zona de conforto que nos detém e nos suga para o marasmo, o não-viver, a completa perda de desejo. Algumas passagens você tem raiva de Hilde. Em outras, você quer deixar o livro de lado e bater palmas. “Como pode?”, a gente se pergunta.

    Separei uma passagem:

    A estrela era assim. Eu nunca sabia o que esperar. Num momento me servia vinho e brindava o meu talento. Noutro, insinuava que eu era burro e me mandava para casa.
    Falando em talento: minha composição não impressionou o vocalista, nem ele achou que fosse o caso de escrever uma letra.
    – Será que é tão ruim? O que é vocês acham? — perguntei ao pessoal, inclusive a Julia, que era a empresária da banda, e portanto parte interessada.
    – Sei lá, é meio antiga…
    – A velha achou do caralho.
    – Foi o que eu disse: é antigona.
    O Rubinho e o Cachorrão olhavam um para o outro e não disseram uma palavra em minha defesa.
    A estrela tinha razão: a cegueira pode ser provocada por várias coisas. No caso deles, pela ignorância. No meu caso, pelo medo, que naquela noite se misturava perigosamente com a arrogância: a estrela havia praticamente me convencido de que eu era um gênio. Agora o pessoal me achava um merda. (pág. 30)

    Carlos Eduardo no exato momento em que percebe que a banda não estava tão aí pra ele. Enquanto Hilde havia mostrado o verdadeiro gênio musical que ele era, a turma que ele vivia estava cega.

    Poderia escrever bastante sobre Estrela Nua, pois há muitos detalhes legais que mereciam, talvez, uma atenção mais especial. Mas deixo aqui a curiosidade. Comprei no Estante Virtual, pois o livro encontra-se esgotado nas livrarias. Talvez por falta de reimpressão. Maria Adelaide Amaral nos presenteia com uma história simples, mas verdadeiramente complexa em significados. A gente termina pensando: será que já passou alguma Hilde na minha vida? Será que fui Carlos Eduardo alguma vez? E se acontecer, será que estarei aberto a estas experiências como o jovem esteve? Imaginar tais situações é o combustível para ler e imaginar cada vez mais.

  • A Boa Filha

    A Boa Filha

    Quando a TAG Experiências Literárias foi lançada, fiquei naquela dúvida se realmente valeria a pena. Fiquei desconfiado pela ideia de receber livros “surpresas” em casa, mesmo se viessem com algum mimo e outros objetos para justificar o valor pago mensalmente. Fiquei ‘namorando’ a vontade de assinar por bastante tempo, até que fiquei sabendo de uma reformulação da proposta. Hoje, a TAG se compõe de Tag Curadoria e TAG Inéditos. Foi este último que me chamou a atenção.

    A TAG Curadoria continua com a premissa inicial: edições de luxo com mimos, cujas histórias são indicadas por grandes nomes da literatura. Ok. Já a TAG Inéditos me ganhou pela proposta de enviar aos assinantes obras de fato inéditas no país, inclusive traduzidas especialmente para os leitores do clube. Fiquei interessado quase instantaneamente. Quais livros eu leria que ainda não foram lançados no Brasil e que seriam tão cativantes assim? Não resisti ao impulso: peguei o cartão de crédito (já tomado por gastos supérfluos do mês) e simplesmente assinei. Dez dias depois, a primeira edição do Inéditos chegou e tenho só uma palavra: espetacular.

    O livro veio numa caixa super bem cuidada, nota fiscal, um marcador com o mesmo tema do livro e um infográfico bacana sobre a história – que você deve ler antes de começar o livro de fato. O infográfico também vira um poster com uma ilustração referente à história. Confesso que lembrei de observar o desenho só depois de terminar o livro.

    Ah! E veio também com uma cartinha de boas-vindas, pois foi o primeiro kit da série TAG Inéditos.

    Eu não conhecia a Karin Slaughter. Não sabia que ela tinha produzido tanto material. Os livros dela já foram traduzidos em 36 idiomas, com mais de 35 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Nascida no estado da Geórgia, EUA, Karin atualmente mora em Atlanta. Sua série Will Trent, a série Grant County e a novela independente Cop Town estão em desenvolvimento para filmes e televisão. A Boa Filha já foi traduzida para o português de Portugal. Para o Brasil, foi traduzido pela TAG exclusivamente para os assinantes.

    Tudo começa em 1989. Sam tem quinze anos e a irmã mais nova, Charlie, tem treze. Elas moram em uma antiga casa de fazenda, pois alguém incendiou a casa anterior que elas viviam com um explosivo. O ataque foi provavelmente alguém com raiva do pai advogado, Rusty Quinn, que defende homens que muitos advogados jamais representariam: os sujeitos mais mau caráter que você possa imaginar.

    Desde então, elas vão passar por várias e sufocantes desafios que deixam o livro altamente interessante e com aquela vontade de terminar de ler.

    A Boa Filha é o tipo de romance que te traz umas sensações que você achava que jamais sentiria lendo. Você sente as pancadas da escrita da Karin. Às vezes é tão intenso que você se pega na ansiedade.

    A sensação que eu tive é de estar lendo um roteiro de um filme. Eu podia visualizar os personagens dialogando, gesticulando, brigando por seus objetivos. Cada “cena de ação” é detalhadamente esmiuçada pela autora. De fato, você imagina estar “assistindo” aquela cena. Imagina cada movimento. Até imita a voz dos personagens, como se participasse do diálogo. Você fica angustiado, com raiva do personagem xis ter feito tal coisa e celebra por ele ter finalmente dito essa outra coisa. Não lembro de ter lido um “livro de ação” tão veloz e ágil como esse.

    Um ponto negativo é a tradução exclusiva feita pela TAG. Faltou uma revisão mais eficaz. Muitos erros de ortografia. Artigos fora do lugar, palavras escritas de forma errada, traduções meio desconexas. Como adquiri (a muito custo) uma velocidade de leitura mais rápida, acabo perdoando pois vou entendendo o contexto no qual aquela frase foi escrita. Mas algumas frases simplesmente não há como perdoar tão facilmente. Gosto de riscar os meus livros, pois assim memorizo passagens, frases e ideias caso eu queira reler depois. Nesse livro da TAG, sublinhei todos os erros que achava, e a cada riscada no livro eu me impressionava.

    Quando terminei, imaginei estar com saudade da Sam, da Charlie, das piadas do Rusty e a cumplicidade com o Ben. Estranho essa ligação que a gente tem com os personagens de um livro. Eles duram justamente o tempo que você lê. Mas, querendo retornar ao universo novamente, é só abrir ele de novo e relembrar as melhores passagens – devidamente grifadas, é claro.

    Para quem assina o clube e já leu, fica a pergunta: o que foi aquele plot twist aos 45 do segundo tempo? Eu até ia dormir, pois a intenção era ler só umas páginas, mas precisei terminar logo de tanta ansiedade.


    No mais, assinar um clube de livros e recebê-los em casa todo mês é uma experiência nova e bem diferente de ir numa livraria e comprar qualquer livro por achar a história da orelha dele bacana. O legal é saber que são edições exclusivas para os associados, escolhidas por quem entende do assunto. Imagino eles apostando todas as fichas numa história: essa daqui vai ser um sucesso… todo mudo vai gostar! Pode mandar imprimir. É quase um tiro no escuro. Não se sabe se as pessoas que assinam o clube realmente vão gostar, mas, pelo menos até agora, na minha sincera opinião, a TAG está acertando nas escolhas dos enredos e na maneira de divulgação – deixando a surpresa tomar conta de quem espera ansiosamente o próximo livro chegar.


    A Boa Filha (The Good Daughter)
    by Karin Slaughter
    Editora: Harper Collins Brasil
    Páginas: 476
    Brochura